Desde
o fim de agosto, manchas de petróleo têm aparecido nas
praias da Nordeste, mas o problema só chegou ao radar do presidente Jair
Bolsonaro e do primeiro escalão do seu governo nesta semana, quando a
substância já havia sido detectada no litoral de quase todos os estados da
região. Na segunda-feira (7), o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, visitou área atingidas e o presidente disse ter “quase certeza” que o derramamento de óleo é
criminoso, sem dar mais detalhes ou explicações.
Aos Fatos desenhou o que se sabe até o momento
sobre as manchas de petróleo nas praias no Nordeste e os impactos desse óleo
que já atinge todos os estados da região.
O último relatório do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis), publicado na última quinta-feira (10), indica que já
foram registradas 150 áreas com manchas de óleo, em 68 municípios dos nove
estados do Nordeste. O Rio Grande do Norte é o estado com mais praias
atingidas: 43.
Essa
extensão de danos torna o derramamento de petróleo no litoral nordestino o
maior já registrado dos últimos 30 anos em termos de área litorânea
contaminada, segundo o pesquisador e professor da Faculdade de Oceanografia da
UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) David Zee.
De acordo com o Ibama, as operações de limpeza
começaram no dia 2 de setembro e, atualmente, ocorrem em 11 áreas, com o apoio
da Petrobras. Até a última terça-feira (8), haviam sido coletadas cerca de 133
toneladas de petróleo (cerca de 500 barris), segundo o presidente da empresa petrolífera, Roberto Castello Branco,
em entrevista coletiva.
Apesar
das proporções do derramamento, o governo ainda não conseguiu determinar de
onde vem o óleo que suja as praias nordestinas. Uma das hipóteses é que pode ter havido um
vazamento em um navio-tanque que transportava o recurso fóssil para longe da
costa. Dois barris de petróleo foram encontrados em duas praias de Sergipe, o
primeiro em Barra dos Coqueiros, no litoral norte; o outro, na Praia Formosa,
na zona sul da capital, Aracaju.
O oceanógrafo e pesquisador da UFPE (Universidade Federal de
Pernambuco) Marcus Silva, em entrevista à TV
Globo, disse que a origem do óleo seria um navio que passava pelo
litoral pernambucano. Segundo estudo feito por ele levando em conta correntes
marinhas, ventos e marés, o petróleo teria sido derramado pela embarcação a uma
distância de cerca de 40 a 50 quilômetros da costa.
Até o momento, existem mais certezas sobre a
origem de fabricação do óleo. Investigação do Ibama com apoio dos Bombeiros do
DF aponta que o material que está poluindo todas as praias seja o mesmo. No dia
25 de setembro, a Petrobras já havia analisado as amostras de óleo
e afirmado que ele não foi produzido pela estatal. Em relatório sigiloso feito para o Ibama, conforme
informado pela Folha de S.Paulo,
porém, a Petrobras enviou resultado de análise comparativa com o petróleo
venezuelano, que tem características diferentes das encontradas no brasileiro.
A conclusão reforça a suspeita de que o óleo que chegou às praias do Nordeste
tenha vazado de algum navio.
Um estudo de pesquisadores da UFBA (Universidade
Federal da Bahia), feito em parceria com especialistas da UFS (Universidade
Federal de Sergipe) também concluiu que o petróleo tem correlação com um dos
tipos de petróleo produzidos na Venezuela. Foram coletadas 27 amostras de
resíduos ao longo do litoral de Sergipe e da Bahia, e nove delas foram
submetidas a análises geoquímicas. Segundo os pesquisadores, nenhuma das
variedades de petróleo produzidas no Brasil apresenta características
semelhantes às encontradas nas amostras analisadas.
O
derramamento de óleo também afeta a economia do Nordeste. Uma das atividades
mais impactadas até o momento é o turismo. Em Fortaleza, por exemplo, as manchas fizeram com que
fosse interditada uma das praias mais frequentadas do Ceará, a Praia do Futuro.
Com isso, a AEPF (Associação dos Empresários da Praia do Futuro) afirmou
que teve queda de 40% nas vendas das barracas na região no último fim de
semana. Ao todo, 11 praias da zona leste da cidade estão impróprias para banho
e isso já impacta o comércio local.
Em Sergipe, a situação é mais grave, e o governo do estado decretou estado de emergência
da faixa litorânea. Todas as praias do estado foram consideradas impróprias
para banho por conta da contaminação com petróleo.
As manchas de petróleo seguem se deslocando
em direção ao sul e chegaram às praias de Salvador nesta sexta-feira
(11). Pequenas pelotas de óleo foram identificadas em pelo menos quatro praias
da cidade, segundo a prefeitura local. A preocupação das
autoridades e dos ambientalistas é que o óleo chegue ao arquipélago de
Abrolhos, no sul da Bahia, onde as baleias jubarte permanecem até meados de
novembro.
Outra
atividade impactada pelo derramamento de petróleo é a pesca. Jornais locais e
nacionais apresentam relatos de pescadores que interromperam as atividades em
ao menos cinco estados.
Na Bahia, no município de Conde e arredores,
pescadores interromperam a pesca por conta em alto mar por conta do óleo. Em entrevista ao G1, os
pescadores relataram que os peixes vinham coberto de óleo. Os mesmos relatos se
repetem em Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Maranhão.
Até o momento não há relatório federal nem do
Ibama nem da Secretaria de Aquicultura e Pesca, sobre impacto do derramamento
na atividade pesqueira.
Referências: