O Brasil acertou
com os Estados Unidos a liberação do uso comercial da base militar de
Alcântara, no Maranhão, para o lançamento de satélites e foguetes. A decisão,
que foi acertada na visita do presidente Jair Bolsonaro a Washington, ainda
precisa ser aprovada pelo Congresso e pode encerrar um processo de negociação
iniciado há quase 20 anos.
A primeira versão
de um “acordo de salvaguardas tecnológicas”, nome do documento que permite a
entrada de pesquisadores estrangeiros na base brasileira, chegou a ser assinada com os EUA no começo dos anos 2000. A ideia, porém, foi rejeitada pelo congresso à época por conter
pontos considerados controversos. O principal deles era a criação de uma área
cedida aos pesquisadores americanos com total sigilo, onde brasileiros não poderiam
entrar – algo visto como prejudicial à soberania nacional.
O novo tratado
limita o uso estrangeiro da base “para fins pacíficos” e estabelece que o
Brasil não poderá ter acesso a equipamentos com
tecnologia americana. Segundo o acordo, o dinheiro recebido pelo Brasil poderá
ser usado para financiar o desenvolvimento do programa espacial nacional.
O valor do
pagamento recebido pelo aluguel ainda não foi revelado. Segundo o Ministério da Defesa, alugar a base para
lançamentos de satélites pode resultar em ganhos de R$ 37 milhões. Em
setembro de 2018, a FAB (Força Aérea Brasileira) estimou que seria possível
arrecadar até R$ 140 milhões por ano com concessões do tipo.
Espera-se que outros países se juntem aos EUA e formem parcerias como essa com
o Brasil no futuro.
Segundo
a Administração Federal da Aviação dos Estados Unidos (FAA), o
mercado espacial de satélites e foguetes movimenta mais de R$ 3 bilhões ao ano. Estima-se
que 80% dos artefatos espaciais possuem algum componente produzido em
solo americano. Ou seja, sem o acordo, o Brasil deixava de explorar uma
parcela importante do setor.
Já o ministro da
Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, defendeu que o novo acordo não implica
riscos à soberania nacional. Em entrevista, comparou o modelo de exploração com o
funcionamento de um hotel.
“Imagina que você
trouxe alguma tecnologia para dentro do seu quarto que, logicamente, você
controla. Você tem a chave do quarto, mas eu, como dono do hotel, posso entrar a
hora que precisar. É algo mais ou menos nesse estilo”, explicou, em comentário sobre os detalhes da relação com os
cientistas americanos.
O foco de Alcântara
atualmente está em pequenos foguetes nacionais, chamados de veículos de sondagem. Entre eles, estão os modelos
da família Sonda (Sonda II, III e IV). Entram na conta, também, os suborbitais
VS-30, VSB-30, VS-40 e o veículo lançador de satélites (VLS).
Foi durante o
primeiro lançamento do VLS brasileiro, em 2003, que aconteceu a maior tragédia
do programa espacial nacional, quando 21 técnicos e cientistas brasileiros
morreram em um incêndio. Desde então, houve tentativas de aproximação do Brasil
com o governo da Ucrânia para o lançamento de satélites – mas as conversas
finalizaram sem acordo em 2015.
Geografia
favorável
A posição
geográfica do Centro de Lançamento de Alcântara faz dele uma das bases mais
estrategicamente privilegiadas do mundo. E essa vantagem se reflete no aspecto
financeiro. Mandar algo para o espaço a partir de Alcântara pode significar uma
economia de combustível de até 30%.
A explicação para
isso é relativamente simples: a velocidade de rotação da Terra é maior nas
áreas próximas ao Equador do que no restante do planeta, o que serve para dar
um impulso extra ao satélite ou foguete que será lançado. E a base de
Alcântara, distante 32 km de São Luís, capital maranhense, está numa latitude ao 2º18′ ao
sul da linha imaginária que divide o planeta ao meio. Bem mais
próximo do que São Paulo, por exemplo, cuja latitude é 23º5′ sul.
A velocidade que satélites e foguetes têm que atingir para conseguir escapar da atmosfera e chegar ao espaço é de 40 mil km/h. Um satélite que é lançado da base brasileira, onde a rotação da Terra é de 1.668 km/h, tem um impulso maior do que teria se saísse de São Paulo, que gira a uma velocidade de 1.535 km/h.
A velocidade que satélites e foguetes têm que atingir para conseguir escapar da atmosfera e chegar ao espaço é de 40 mil km/h. Um satélite que é lançado da base brasileira, onde a rotação da Terra é de 1.668 km/h, tem um impulso maior do que teria se saísse de São Paulo, que gira a uma velocidade de 1.535 km/h.
“São apenas 133
km/h”, você, leitor, deve estar pensando. Mas essa diferença singela, a longo
prazo, pode representar uma vantagem considerável. Poupando mais combustível,
satélites podem ter mais peso – ou levar mais equipamentos, por exemplo.
Além da proximidade
com o Equador, Alcântara é privilegiada também por características únicas do
nordeste brasileiro, como regime climático e de chuvas bem definido.
Outro fator
favorável é a estabilidade geológica da região. Comparada a outras regiões de
latitude baixa do planeta, como a área central do continente africano e ilhas
do oceano pacífico, o nordeste não sofre com problemas como vulcanismo e
tremores de terra.
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