Ralph M. Lewis,
F.R.C
Os Cavaleiros Templários tiveram origem nas Cruzadas da Idade Média.
Como é de conhecimento geral, as Cruzadas foram uma série de expedições à Síria
e à Palestina, esta última denominada Terra Santa. Consistiam de “devotos e
intrépidos reis cavaleiros”, bem como clérigos, soldados e simples camponeses.
Seu intuito era libertar ou recuperar a Terra Santa, a terra natal de Cristo,
daqueles que os cruzados chamavam de “turcos infiéis”.
Nesse período em particular, o cristianismo ocidental significava a
Igreja Católica Romana; não havia outras igrejas cristãs conhecidas. Todas as
religiões ou crenças não-cristãs, em conformidade com a intolerância que então
prevalecia, eram consideradas pagãs e, seus seguidores, infiéis. No sentido
literal, pagão é o indivíduo que não reconhece o Deus da revelação. Todavia, um
pagão não é necessariamente ateu. Mas, na opinião dos cristãos daquela época
uma pessoa devota que concebe Deus no sentido panteísta, ou como consciência
universal, é pagã. Com toda certeza, todos os não-cristãos eram assim
considerados.
Parecia uma irreverência, um sacrilégio, para os cristãos, que locais
relacionados com o nascimento do Cristo estivessem sob o domínio de alguma
autoridade não-cristã. Pequenos bandos de peregrinos, durante anos antes das
Cruzadas, haviam viajado para a Palestina, com o fim de visitar os santuários.
Em sua devoção e primitiva crença, imaginavam que tais visitas lhes trariam uma
graça espiritual, assegurando-lhes bênçãos especiais no outro mundo.
Atravessaram eles regiões agrestes, onde praticamente não havia lei e
ordem. E punham em risco a sua segurança, viajando principalmente a pé. Em
conseqüência , eram assaltados, roubados, mortos por bandidos que os atacavam.
Esses fatos, chegaram ao conhecimento da Europa Ocidental e da cristandade e
tornaram-se incentivo para as cruzadas.
Durante os séculos doze e treze, cada geração formou pelo menos um
grande exército de cruzados. Além desses enormes exércitos, que às vezes
chegavam a trezentos mil homens, haviam “pequenos bandos de peregrinos ou
Soldados da Cruz”. Durante aproximadamente duzentos anos, houve um fluxo quase
contínuo de reis, príncipes, nobres, cavaleiros, clérigos, e gente do povo da
Inglaterra, da França, da Alemanha, da Espanha, e da Itália para a Ásia menor.
Ostensivamente, essas migrações tinham fins religiosos, levando consigo, como
já dissemos, muitos aventureiros, cujo objetivo era de explorar. Assassinos e
ladrões viajavam para a Terra Santa e roubavam, pilhavam e violavam mulheres.
Os muçulmanos, devotos e respeitadores da lei, cuja cultura era muito superior a da Europa na época, ficavam chocados com a conduta desses “cristãos”. Era de se esperar que protegessem suas famílias e propriedades desses saqueadores religiosos. Assim, por sua vez, matavam os peregrinos ou os expulsavam. Sem dúvida, muitos peregrinos inocentes perderam a vida por causa da reputação criada pela conduta de alguns de seus companheiros. Os povos não-cristãos do Oriente Próximo não podiam distinguir os peregrinos que tinham nobres propósitos daqueles cujos objetivos eram perversos.
Os muçulmanos, devotos e respeitadores da lei, cuja cultura era muito superior a da Europa na época, ficavam chocados com a conduta desses “cristãos”. Era de se esperar que protegessem suas famílias e propriedades desses saqueadores religiosos. Assim, por sua vez, matavam os peregrinos ou os expulsavam. Sem dúvida, muitos peregrinos inocentes perderam a vida por causa da reputação criada pela conduta de alguns de seus companheiros. Os povos não-cristãos do Oriente Próximo não podiam distinguir os peregrinos que tinham nobres propósitos daqueles cujos objetivos eram perversos.
A Primeira Cruzada
Tomando conhecimento desta situação, Papa Urbano II, em 1095, em
Clemont, França, exortou o povo a iniciar a primeira grande Cruzada.
Conclamou os cavaleiros e nobres feudais a cessarem a guerra que
travavam entre si e socorressem os cristãos que viviam no oriente. “Tomai a
estrada para o Santo Sepulcro; arrebatai a região à raça perversa e sujeitai-a
ao vosso domínio”. Consta que, quando o Papa terminou de falar, a vasta
multidão que o escutava clamou quase uníssono: “É a Vontade de Deus!”. Esta
frase tornou-se depois o grito de guerra da heterogênea massa que formou o
exército da Cruzada. Aqueles homens estavam convictos de que estavam obedecendo
à vontade de Deus, de modo que brutalidade, assassínio, estupro e pilhagem, nas
terras do Oriente, estavam justificados por sua missão.
Era impossível aqueles milhares de homens levarem consigo alimento
suficiente para a viagem, visto que esta durava vários meses, em condições
muito difíceis. Portanto, eram eles obrigados a buscar sustento nas terras que
invadiam. Muitas pessoas inocentes do Oriente, não-cristãs, eram assassinadas,
seu gado lhes era tomado e suas casas saqueadas, para o sustento dos cruzados,
que sobre elas se abatiam como nuvem de devoradores gafanhotos. Naturalmente, a
retaliação vinha rápida e violenta. Muitos cruzados foram mortos pelos
húngaros, que reagiram para se proteger contra a depredação causada pelas hordas
que passavam por sua região.
O espírito de avareza ou cobiça aproveitou-se das circunstâncias. Muitos
cruzados procuravam seguir para a Palestina e a Síria por mar, a fim de evitar
a viagem mais longa, toda feita por terra. Ricos mercadores das prósperas
cidades de Veneza e Gênova tramaram conceder aos cruzados “livre’ passagem para
a Síria e a Palestina. Mas exigiam dos peregrinos o compromisso de
exclusividade de comércio em qualquer cidade por eles conquistadas. Isto
permitiria a esses mercadores ocidentais manter centros comerciais no Oriente,
obtendo então excelentes produtos do seu artesanato. As jóias, a cerâmica, a
seda. A especiaria, mobília e os bordados do Oriente eram superiores a tudo o
que se produzia na Europa Ocidental da época.
Das cruzadas emergiam muitas curiosas ordens religiosas e militares.
Duas das mais importantes foram os Hospitalários e os Templários. Essas ordens
“combinavam dois interesses dominantes da época, o monge e o soldado”. Durante
a primeira Cruzada foi formada, de uma associação monástica, a ordem conhecida
como os Hospitalários. Seu objetivo era de socorrer os pobres e enfermos dentre
os peregrinos que viajavam para o Oriente.
Cruz de Malta: o emblema
posteriormente, a Ordem admitia cavaleiros, além dos monges, e depois se
tornou uma ordem militar. Os monges usavam uma cruz em sua veste e andavam com
uma espada à cinta. Lutavam, quando necessário, embora se dedicassem principalmente
em socorrer os peregrinos doentes. Receberam doações de terras, nos países do
Ocidente. Também construíram e controlaram mosteiros fortificados, na terra
Santa. No século treze, quando a Síria, principalmente, foi evacuada pelos
cristãos, os Hospitalários mudaram sua sede para a ilha de Rodes e, mais tarde,
para Malta. Esta Ordem ainda existe e seu emblema é a Cruz de Malta.
A outra ordem tinha o nome de Cavaleiros Templários, ou “Cavaleiros
Pobres de Cristo e do Templo de Salomão”. Esta ordem não foi fundada para fins
de auxílio terapêutico. Desde sua formação, era uma ordem militar. Seus
fundadores foram Hugues de Pyens, um cavaleiro bolonhês, e Geoffroi de
Saint-Omer, um cavaleiro francês.
No começo do século doze, assumiram eles a proteção dos peregrinos que
se dirigiam a Jerusalém. Pretendiam realmente construir uma escolta armada para
esses grupos. Mais tarde, sete outros cavaleiros se uniram a eles. Esses nove
cavaleiros se constituíram numa “comunidade religiosa”. Fizeram um juramento solene
ao Patriarca de Jerusalém, no qual se comprometaram a guardar estradas públicas
e abandonar o cavaleirismo terreno; seu juramento incluía um voto de castidade,
abstinência e pobreza.
A missão dos Templários arrebatou a imaginação, não só dos homens livres
de classes inferiores, mas também de altas autoridades seculares e no seio da
Igreja. Balduino I, Rei de Jerusalém, cedeu parte do seu palácio a essa Ordem
de monges-guerreiros. Esse palácio era adjacente à Mesquita de Al-Aka, o
chamado Templo de Salomão. Devido a esta localização os componentes da Ordem
passaram a ser chamados Cavaleiros Templários ou Cavaleiros do Templo. A
princípio, não usavam uniformes, nem qualquer hábito especial; usavam suas
roupas costumeiras. Depois, passaram a usar uma veste branca com a dupla cruz
vermelha. O primeiro ato que atraiu atenção mundial para eles foi o seu esforço
para redimir cavaleiros excomungados.
Muitos cavaleiros haviam violado seu alto código de cavaleirismo, em
expedições à Terra Santa, e haviam sido excomungados pela Igreja. Os Templários
procuraram redimi-los e introduzi-los em sua Ordem. Assumiram também a missão
de impedir que trapaceiros, assassinos, perjuros e aventureiros, explorassem a
Terra Santa.
Um outro ato, no início, colocou os cavaleiros em atrito com o clero. Os
Templários tentaram conseguir imunidade a excomunhão por párocos e bispos.
O dirigente principal da Ordem era denominado “Mestre do Templo de
Jerusalém”. Mais tarde passou a Grande Mestre da Ordem em Chipre. A autoridade
desse Grande Mestre era considerável, mas não era absoluta. Tinha ele de
consultar a maioria dos Templários, em questões como, por exemplo, declarações
de guerra. Por muitos anos os Templários mantiveram-se em guerra contra os
“infiéis”. Os chamados infiéis eram principalmente os sarracenos, a se aliar,
por vários meios e particularmente como indivíduos, às famílias reinantes da
Europa. “Um Grande Mestre era padrinho de uma filha de Luiz IX”. “Um outro era
padrinho de um filho de Felipe IV”. Sua influência se fez sentir em meio ao
clero, pois os Templários eram convocados a participar nos concílios privativos
da Igreja, como o Concílio Lateranense de 1215.
Banqueiros e Financistas
Uma curiosa função, totalmente distinta de seu objetivo declarado, mas
que era um sinal de poder, foi a de que os Templários se tornaram os grandes
financistas e banqueiros da época. Consta que seu Templo de Paris era o centro
do mercado financeiro mundial. Nesse banco, papas e reis depositaram seu
dinheiro. Os Templários ingressaram com êxito no mercado de câmbio com o
Oriente. Essa foi talvez a primeira de tais empresas na Europa. Não cobravam
juros sobre empréstimo, pois, a agiotagem era proibida – declarada imoral pela
Igreja e a Coroa. Aluguéis superiores aos valores usuais para empréstimos sob
hipoteca eram uma espécie de juro tolerada.
A história registra que os Templários atingiram o ápice do seu poder
pouco antes de sua ruína. Com efeito, haviam eles se tornado uma “igreja dentro
da igreja”. Isto acabou provocando uma desavença com o Papa Bonifácio VIII, no
dia 10 de agosto de 1303, o rei se aliou ao chefe dos Templários, contra o
Papa. Esse mesmo rei, Philippe, acabou traindo os Templários. Havia ele sofrido
um grande prejuízo financeiro e não conseguia recuperar seus recursos. Imaginou,
então, que a supressão dos Cavaleiros Templários lhe seria vantajosa; assim,
planejou unir todas as ordens, sob a sua autoridade.
Primeiro era necessário, pensava ele, desacreditar os Templários.
Procurou realizar seu intento proclamando que a Ordem era herética e imoral.
Introduziu espiões na Ordem, os quais, segundo consta, cometeram perjúrio
revelando os ritos, juramentos e cerimônias que os mesmos profanavam o
cristianismo. O público em geral sabia que os Templários tinham ritos secretos,
mas não conheciam realmente sua verdadeira natureza. Havia rumores infundados
de que esses ritos eram lascivos e blasfemos. Portanto, as declarações dos
espiões perjuros do Rei Philippe pareceram confirmar os boatos.
O Papa não se demonstrou inclinado a acreditar naqueles relatos que lhe
eram transmitidos através das tramas de Philippe e tomar providências em função
dos mesmos. Então o rei, astutamente, apresentou suas inventadas queixas à
Inquisição, que na época, prevalecia na França. A Inquisição tinha o poder de agir
sem consultar o Papa. Em conseqüência, o Grande Inquisidor exigiu a prisão dos
Templários. No dia 14 de setembro de 1307, Philippe determinou que os membros
da Ordem dos Templários fossem capturados.
Jacques de Molay
A 6 de junho de 1306, Jacques de Molay, Grande Mestre dos Templários de
Chipre, consultava o Papa Clemente V sobre “a perspectiva de uma nova cruzada”.
Aproveitou o ensejo para denunciar as acusações que estavam sendo feitas contra
os Templários, e partiu. Durante todo o tempo em que lhes eram imputadas
incriminações, os Templários não se defenderam. Seis meses depois, Jacques de
Molay e sessenta de seus companheiros foram presos e forçados a confessar.
Primeiro, os oficiais do rei os torturaram. Em seguida, entregaram-no aos
inquisidores da Igreja, para que fossem ainda mais torturados. Muitos desses
Templários eram idosos e morreram em decorrência da desumana crueldade a eles
infligida por aqueles representantes da Igreja. As confissões que lhes eram arrancadas
eram falsas; haviam eles sido forçados a confessar atos de irreverência e
heresia. O Grande Mestre foi obrigado a escrever uma carta em que admitia ter
cometido atos contra a Igreja.
O Papa acabou sancionando os atos dos inquisidores e ordenou a prisão
dos Templários em toda a cristandade. É possível que tenha se sentido inseguro
quanto à medida que tomara, pois, mais tarde, determinou uma nova Inquisição
para reconsiderar as acusações contra os Templários, acreditando que teriam um
julgamento justo. Os Templários abjuraram suas confissões anteriores, em que
tinham sido feitas sob coação. Sofreram, porém, amarga decepção! A retratação
de suas confissões era passível de punição com a morte na fogueira, castigo que
muitos foram obrigados a sofrer.
No dia 14 de março de 1314, Jacques de Molay, o Grande Mestre, e outro
Templário, foram levados a um cadafalso “erguido em frente a Notre Dame”.
Deviam então confessar sua culpa, ante os legados papais e o povo. Ao invés
disto, retrataram-se de suas confissões e tentaram defender os Templários
diante da grande multidão que assistia ao processo. Proclamaram a inocência da
Ordem. Foi imediatamente ordenado, então, que eles fossem queimados. E assim
foram executados, com a aprovação da Igreja Romana.
Que haviam os Templários realizado? Muitos lhes atribuíram o impedimento
da propagação do poder islâmico na Europa. Talvez eles tenham realmente
contribuído para isto, mas é discutível a questão de que a propagação da
cultura islâmica na Europa teria sido prejudicial. Geralmente, admitem os
historiadores que a civilização teria avançado séculos se tivesse sido
permitido que a sabedoria dos muçulmanos se propagasse pela Europa, naquela
época. Foram necessários vários séculos de progresso do conhecimento, na
Europa, para igualar e superar o conhecimento que os muçulmanos então possuíam.
Os povos islâmicos eram os preservadores do conhecimento original dos gregos e
dos egípcios.
Talvez a maior realização dos Templários tenha sido o estímulo à virtude
entre bravos e fortes. Muitos cavaleiros haviam adquirido muito conhecimento
nos países orientais, durante as Cruzadas. Tinham descoberto que havia no
Oriente uma civilização superior à que existia na mais rude sociedade do
Ocidente cristão.
Muitos Templários foram secretamente iniciados nas escolas de mistérios
do Oriente, onde lhes foi revelada a sabedoria do passado. Embora constituíssem
uma Ordem cristã, os Templários eram independentes da Igreja, no sentido de que
esta não dominava o seu pensamento. Muitos se tornaram Templários porque,
dentro da esfera de influência e proteção da Ordem, podiam estudar e
desenvolver um conhecimento que não ousavam, como indivíduos, estudar e
desenvolver fora dessa esfera. As pessoas de mentalidade liberal tinham na
Ordem dos Cavaleiros Templários uma espécie de refúgio. Foram estes estudos, a
investigação intelectual e os rituais místicos, que provavelmente deram crédito
ao boato de que os Templários eram hereges.
Segundo a tradição, muitos cavaleiros Cruzaram o Umbral da Ordem
Rosacruz e a ela se afiliaram os que eram membros de escolas esotéricas. Muitos
cavaleiros tiveram coragem de investigar os campos de conhecimento que suas
incursões por países orientais haviam possibilitado. E esse conhecimento
ultrapassava as limitadas fronteiras de investigação da Igreja.
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